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Educação após Auschwitz

A carta de Marcel Nadjari decifrada recentemente e escrita em Auschwitz no ano de 1945 descreve o que, segundo o autor, a mente humana não pode imaginar. Nadjari foi recrutado para integrar os “Sonderkommando”, pelotão de judeus que era encarregado as tarefas mais degradantes do campo de concentração, tais como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos, limpeza das câmaras de gás e outros serviços considerados indignos pelos próprios nazistas. O trabalho dos Sonderkommando foi fielmente retratado no angustiante filme de László Nemes, o Filho de Saul, de 2016. Mas qual a relação da carta descoberta em 2017 com a obra de Adorno?

Foi Theodor Adorno quem nos alertou para o que seria uma espécie de obrigação das novas gerações de educadores com relação à história recente da humanidade. Em sua famosa palestra “A educação Após-Auschwitz”, transmitida na rádio de Hessen, em 18 de abril de 1965, publicada em Zum Bildungsbegriff der Gegenwart, em Frankfurt, no ano de 1967, o filósofo afirmou que a exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.

De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Esta orientação é, ao mesmo tempo, um alerta em relação ao sempre perigoso esquecimento de fatos cruciais e tenebrosos da história humana. A disciplina de história, para Adorno, seria no sentido em que ele coloca as teses de seu celebrado texto uma espécie de alerta e antídoto contra o fascismo, a barbárie e o preconceito. Certas datas e descobertas, sabemos, não são comemorativas. A simples lembrança do genocídio do holocausto, por exemplo nos enche de vergonha e tristeza. Não se comemora o holocausto. Por outro lado, comemora-se o seu final efetivado pelas mãos do próprio homem e isto, se não é motivo de júbilo, é, pelo menos motivo de alívio e ocasião para reflexão. Não se comemora o fato consumado do holocausto, mas celebra-se a libertação dos campos de concentração, lugar onde ocorreram, talvez, os horrores mais absurdos que a humanidade já perpetrou. No mesmo sentido, não se comemora uma descoberta histórica como a carta encontrada de Marcel Nardjari em Auschwitz recentemente, enterrada em 1945.

A advertência de Adorno se vale de um resgate freudiano na tentativa de evidenciar que a barbárie está na origem da civilização humana e que, portanto, faz parte de alguma instância inconsciente de nossa estrutura psíquica.

Impedir que Auschwitz se repita seria impedir nosso retorno a esse referencial de comportamento guardado, ou, de certa forma superado pelo homem. Neste contexto Adorno introduz o problema da liberdade. Para o filósofo, o fato das pessoas não saberem lidar direito com sua própria liberdade e responsabilidade, faz com que elas substituam com facilidade os seus superegos por autoridades externas. Obviamente os líderes nacionalistas, os ditadores de todos os matizes assumem esta tarefa e levam as sociedades à extremos políticos de ódio e violência.

O campo e a cidade produzem tipos sociais que aderem com facilidade a correntes  políticas e lideranças duvidosas e perigosas. Outro aspecto ressaltado por Adorno é o fato da tecnologia exercer um papel determinante na reificação (coisificação) da consciência por ser considerada um ente superior. Os homens tendem a esquecer que são eles próprios que produzem a tecnologia, e não o contrário, e se tornam espécies de escravos das máquinas, como se as máquinas fossem entidades superiores. Temos certa admiração exagerada pelas máquinas vistas como maravilhas, e realmente o são, mas quando esta admiração provoca um distanciamento do humano o problema se anuncia. Note-se, o papel de distanciamento proporcionado pela tecnologia na operacionalização do massacre de seres humanos. Quanto mais tecnológico mais limpo o processo, quanto mais tecnológico menos culpa o operador do processo e da máquina de extermínio mais distante de minha decisão está a morte do outro. Some-se a isso todo a estrutura da hierarquia militar e ninguém será responsável, ao final, pela morte de milhões de pessoas. Auschwitz, este é seu horror maior, é fruto da tecnologia, da ciência e da operacionalização racional de meios para chegar a fins. Goya criou um obra muito famosa na qual ele insere a frase “O sono da razão produz monstros.” Se fizermos um paralelo com a mensagem de Goya podemos afirmar que Auschwitz produziu mostro através de uma razão acordada, isto é, consciente de sua operacionalização material, matemática, científica.

Adorno lembra que existe uma concepção de formação denominada por ele de “educação pela dureza”, nesta modalidade, as pessoas para terem mérito devem suportar o insuportável. Caso clássico dos soldados que executaram o genocídio em nome de um bem maior da nação. Nenhum bem maior pode ser justificado com a morte de um ser humano. Esses atos, lembra-nos Adorno, nos remetem também ao sadomasoquismo e à indiferença à dor, à frieza necessária ao ato que se perpetua no indivíduo e mata sua “humanidade” A humanidade seria a capacidade de sentir compaixão. Compaixão, por sua vez é a sentimento, ou a capacidade de sentir, em algum grau a dor do outro (com-paixão, compartilhar o sentimento, Mitleid, Mit com Leid –dor).

A educação, para Adorno, seria uma ação preventiva no sentido de evitar a barbárie e efetivamente evita-la passaria pela emancipação do homem com relação aos seus instintos destrutivos, sua face bárbara e violenta, seria, sobretudo, conferir ao homem de amanhã um caminho para que ele possa lidar com sua liberdade no próprio sentido do esclarecimento, isto é, de uma autonomia da razão sobre a atração da violência.

* Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade e Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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