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O Aborto

Mãezinha...Não me mates novamente, necessito nascer!

Quanto me alegrei no dia em que tu, em espírito, ao lado de papai, aceitaste receber-me na intimidade de teu lar. Ansiava por esse momento; planejava um futuro de luz. Em verdade, minha vida estaria marcada por provas e testemunhos redentores. Contudo, preparei-me, confiado no teu amor. E, no momento em que mais necessitava de ti, me assassinaste...

Por que, mãezinha? por que?

Quando me sentiste no santuário do teu ventre,  trocaste de conduta e começaste a torturar-me. Teus pensamentos de revolta, que ninguém ouvia, retumbava em meus ouvidos incipientes, como gritos dilaceradores que me afligiam enormemente. Muitas vezes, os cigarros que fumava me intoxicavam. O teu nervosismo, fruto de tua inconformação, me resultavam em verdadeiras chicotadas.

Quando decidiste abortar, ocorreu uma luta tremenda: tu querendo expulsar-me de teu ventre; e eu lutando por permanecer.

Por que fechaste os ouvidos à voz da consciência que te pedia compaixão e serenidade...

Por que anestesiastes os sentimentos, ao ponto de esqueceres que eu trazia um universo de bênçãos e de alegria para ti?

Haveria de ser um filho obediente e amoroso. Trazia meios que iam amparar-te nos últimos anos de tua presença na Terra. Todavia, tu não quiseste. Olha as conseqüências: eu, atormentado por não poder nascer, e tu enferma, triste e intranqüila. Tua mente castigada pela aflição e teus sonhos povoados de pesadelos.

Por que, mãezinha, por que não me deixaste nascer?

“É cedo ainda”, pensaste. “Quero gozar a vida, passear, divertir-me, viajar. Os filhos, só depois”.

Todavia, nenhum filho chega no momento inadequado. As leis da vida são sábias e ninguém nasce por acaso.

Porém, pelo grande amor que te tenho, estou pedindo para ti a misericórdia de Deus. Até me atrevi a interceder para que alcances a bênção do reequilíbrio, para que, em futuro próximo, estejamos juntos, eu em teu ventre e tu, como sempre, em meu coração; eu alimentando-me de tua vitalidade e tu fortalecendo-te na grandeza de meus mais puros sentimentos.

Mãezinha, por favor, não repitas teu ato premeditado!

Quando sentires novamente alguém batendo na porta de teu coração, serei eu, o filho rejeitado, que voltou para viver  e ajudar-te a ser feliz.

Mãezinha, não esqueças de mim, não me abandones! Não me expulses, não me mates novamente! Necessito Nascer!

Texto: Capelão Lucca

 

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