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Futebol de várzea
tem dessas coisas

A várzea tem histórias fantásticas. E quantas! Eu, inclusive, participei de várias. Mas, uma tarde de futebol no campo do Mimi, no Mato Dentro, na década de 70, foi antológica.

Creio que o ano era 1971. Eu era um dos adolescentes dessa época, que depois da aula no Ginásio costumava jogar bola nos campinhos de várzea da Vila Ramos. Alguém comentou que no domingo ia ter um jogo de futebol no campo do Mimi, no Mato Dentro (bairro rural de Franco da Rocha), e que o Tininho estava montando um ‘catado’. Para fazer parte do time bastava pagar uns Cinco cruzeiros, que era para ajudar a pagar o aluguel do caminhãozinho do Jacaré que deveria levar o pessoal para lá.

Pensei comigo: ”Falta arrumar a chuteira, porque minha mãe deve me arrumar esses cincão”. Não foi muito difícil, um amigo me emprestou a chuteira e os cinco mangos pedi para minha mãe, que me arrumou sem problema. Eu ainda não tinha um emprego fixo e o pouco dinheiro que conseguia fazendo uns bicos eram insuficientes para algumas emergências, como essa.

E lá estou eu na manhã de domingo, junto com uma molecada em frente à igreja Nossa Senhora de Fátima, no centro do bairro da Vila Ramos, aguardando a chegada do caminhão. Muitos amigos ali e um deles, o Mone, estava preocupado porque não tinha conseguido arrumar o dinheiro para pagar o caminhãozinho do Jacaré. Então fui falar em sua defesa com o Tininho, dizendo que ele era importante para o time e se ele não poderia fazer uma exceção e permitir que fosse com a gente. Ele concordou, mas fez uma ressalva: “Só vai entrar jogando quem tiver pago o caminhão”, disse.

O Mone jogava muito. Seria um desperdício ter um atleta como ele de fora do time. Mas regulamento é regulamento. Fiquei na ‘minha’ e contei para ele que poderia ir com a gente mas ia ficar na reserva.

Um time ‘catado’, como se dizia na época, era juntar um pessoal na última hora para disputar uma partida de futebol. Não importava se o cara era bom de bola, o importante era completar os onze jogadores. Nem me lembro se o nosso time tinha um nome. Às vezes a gente utilizava o nome do Guarani da Vila Pilão.

Era costume o responsável pelo grupo sair com uma lista pedindo contribuições em dinheiro para ajudar a pagar a lavagem do jogo de camisas. Uma senhora do bairro lavava o material esportivo mediante uma pequena quantia. Suficiente para ela custear o sabão e ganhar um dinheirinho.

Foi então que apareceu o caminhãozinho do Jacaré. Era pequeno. Maior que uma camioneta e menor que um caminhão. Intermediário, mas suficiente para acomodar o time em sua carroceria.

Estacionou em frente à igreja da Vila Ramos e todo mundo saltou para cima da carroceria. Na cabina do caminhão ia o Jacaré, o motorista, e o nosso técnico Tininho. O roupeiro era o Groselha, um negão de quase dois metros de altura que tomava todas. Era difícil encontrá-lo sóbrio. Mas naquela hora da manhã, parecia ser um desses raros momentos. E lá estava ele impassível sentado num dos cantos da carroceria, sentado em cima dos sacos brancos de farinha que guardavam os uniformes do time.

O caminhãozinho desceu a rua Trinta de Novembro em direção à estrada que levava à Mairiporã, e seguiu em frente rumo ao Mato Dentro. Naquele tempo, aquele trecho da estrada de terra era conhecido como Estrada do Governo, ainda não havia sido construída a rodovia prefeito Luís Salomão Chamma.

E o caminhãozinho seguiu tranquilo pela estrada, porque naquele tempo não havia o movimento que tem hoje. A estrada era de terra, mas plana. Em frente à antiga Quarta colônia ele virou à esquerda e seguiu pela estrada da Vargem Grande, uma estrada de terra, mas com muitos buracos. O caminhãozinho balançava para lá e para cá causando sustos na galera. Mato dos dois lados e o leito da estrada com muitos sulcos das rodas dos carros de boi, que em alguns trechos se tornavam maiores.

De repente aquela mata foi desaparecendo e dando lugar a um descampado e já era possível avistar o aglomerado de casinhas que compunham o vilarejo do Mimi. Era um vale plano na sua parte mais baixa e nos cantos mais altos, próximo às montanhas que o circundavam era possível ver uma grande plantação de cana. Muitas vacas pastando de um lado para o outro e um cercado quadrado de varas de eucaliptos dava sinal que era ali o campo de futebol.

O caminhãozinho do Jacaré parou em frente ao que parecia ser um barzinho. Um alpendre espaçoso e no fundo um balcãozinho de madeira e atrás várias prateleiras com várias garrafas de bebidas. A maioria era cachaça. Muitas marcas diferentes, mas a que predominava era a pinga Barbosa, muito conhecida na região, porque essa pinga era fabricada num alambique que ficava bem próximo dali e que pertencia à família Barbosa.

Todos desceram do caminhãozinho. Uma parte foi para o barzinho e a outra para o que parecia ser os vestiários. Nosso uniforme era simples e desgastado pelo excesso de uso. Os pares de meias quase sempre apresentavam furos nas pontas dos pés e dos calcanhares. Algumas camisas apresentavam furos e rasgos embaixo das axilas e eram bem desbotadas de tanto lavar.

As chuteiras ainda tinham solado de couro e as travas também. Alguns modelos já começavam a mostrar umas travas de plásticos. Como o solado de couro era pregado, era costume o jogador antes de entrar em campo mostrar a sola da chuteira para a arbitragem verificar se não havia nenhum prego solto que pudesse ferir o adversário.

O pessoal se dirigiu para o vestiário que parecia ser um local frequentado pelas vacas dali, pois havia estrume no chão e capim seco. Uns cabides improvisados nas paredes, uns bancos de madeira logo abaixo, mas sem chuveiros.

O time pronto, uniformizado foi para o que parecia ser o campo de futebol. O formato fugia totalmente aos padrões retangulares convencionais. Era quadrado. O escanteio teria que ser batido por alguém de chute potente para conseguir fazer a bola chegar até a grande área.

As traves eram de eucaliptos. Não tinham redes. O juiz teria que ter a vista aguçada para perceber se a bola havia entrado ou não, no gol. Atrás de umas das traves passava um regato de águas límpidas e dava para ver os peixinhos. Era raso com uma vegetação abundante nas margens.

O time do Mimi entrou em campo. Um bando de matutos que pareciam trabalhadores em sua maioria. Deviam pertencer a um Olaria que havia nas proximidades. O uniforme branco tinha listras azuis claras e calção era azul marinho. As meias também listradas de azul claro. Mas um dos jogadores chamou a atenção. Ele portava um par de chuteiras da cor azul clara,  o que não era comum naquela época. O danado havia pintado sua chuteira com tinta óleo. E tinha um visual exótico, parecia um bugre do Xingu. Cabelos negros, longos e olhar austero.

Nosso time também entrou. Sem o Mone. Como nosso técnico havia explicado, o titular era quem havia colaborado para ajudar a pagar o frete do caminhãozinho do Jacaré. O Jaimão, que não era um jogador qualificado, mas havia pago, é quem estava titular deixando o Mone na reserva.

Os dois times foram cada um para seu lado no campo. Nosso goleiro, o João da Enxada, cumpria o ritual dos arqueiros de ir até o canto de cada trave e dar uns chutinhos no pé dela, pois se acreditava que esse procedimento dava sorte. E enquanto fazia isso, terminava de dar os laços finais no barbante da cintura de seu calção e foi nesse momento que o juiz autorizou o início da partida.

Nosso centroavante deu o passe para trás, em direção ao meio-de-campo, que por sua vez recuou ainda mais para o zagueiro que se viu acuado com a pressão do atacante contrário e atrasou a bola em direção ao gol (naquele tempo podia atrasar para o goleiro) na esperança de que o goleiro ficasse com a bola para tranquilizar o início da partida.

Mas a bola foi no canto contrário onde estava João da Enxada amarrando os laços de seu calção e dando bicos no pé da trave. A bola ia entrando quando surgiu o Jajá, todo atrapalhado e conseguiu desviar a bola para escanteio, mas não conseguiu parar a tempo e atravessou a linha do gol e foi em direção ao riozinho que passava ali atrás. Foi um autêntico mergulho.

Esse seu feito foi muito comemorado pelos companheiros que exaltaram sua façanha e foram até o regato ajudá-lo a sair. Ele saiu bravo, todo molhado e pedindo mais atenção à defesa.

O campo tinha ondulações, não era totalmente plano e dava para se notar algumas poças verdes de bosta de vaca, que à primeira vista, engana; pois ela parece rígida, seca, mas embaixo, no seu interior, está totalmente cremosa.

Eu havia observado esse detalhe, mas o Dorival Mondevaim, nosso ponta-esquerda, não!  E ele partiu num contra-ataque pelo seu setor em sua desabalada carreira. Deu um toque na bola em direção à linha de fundo, prenunciando que iria lançar a bola na área. E foi então que  percebi que a bola em vez de continuar rolando, parou. Ela havia parado porque uma poça de bosta de vaca (cremosa) havia interrompido seu curso.

Eu estava correndo em direção à grande área para receber esse passe e tentar o cabeceio e notei que quando o Dorival chutou a bola gerou várias gotas verdes no ar. Pensei: chutou a bosta de vaca.

E para meu desespero a bola veio em minha direção. Em seu trajeto pude observar que ela vinha girando e soltando gotas verdes no ar. Se eu colocasse a cabeça nessa bola eu iria mudar de cor. Dei uma de ‘Migué’. Saltei para cabecear, mas me esquivei no ultimo momento deixando a bola passar. O beque que vinha atrás não fez o mesmo e meteu a cabeça na bola.

Ele ficou verde igual ao Hulk.

 O jogo terminou 2 X 2 e fomos para o vestiário, pegamos nossas roupas e nos dirigimos até o regato para tomar um banho. Quando fomos nos vestir notamos que nossas roupas estavam repletas de carrapatos. Deu um trabalhão para eliminar aqueles bichos.

Nos vestimos e nos dirigimos para o barzinho para beber alguma coisa. Quem não era da turma do Groselha pediu refrigerante. Alguém pediu guaraná Brahma , outro pediu Seven-up e teve aqueles que pediram Crushi e Grapete. O dono da Venda (barzinho da roça) que estava com o radio ligado ouvindo a transmissão do jogo entre São Paulo e Corinthians disse que só tinha Turbaina e o jogo estava empatado.

Subimos no caminhãozinho do Jacaré e voltamos para casa. Era um fim de tarde de outono, bucólica e tranquila como era aquela época.

Texto: Benedito Coutinho

fretado

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