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As festas para N. Srª de Fátima,
a padroeira do bairro

Nos anos 60, por volta das seis horas da manhã do segundo domingo de maio, a população do bairro de Vila Ramos acordava com o barulho ensurdecedor do sino da torre da igreja, e em seguida vinha o ribombar dos rojões. Um atrás do outro. Era o principio da comemoração da semana em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, a padroeira do bairro.

Enquanto os mais sonolentos tentavam dormir novamente, alguns tratavam de pular fora da cama e iniciar o dia. Enquanto alguns se dirigiam para a feira-livre, localizada no centro da cidade para fazer suas compras para a semana outros deixavam suas casas e seguiam para a praça. Enquanto isso, Valentin Campanholli e Juca Benga, responsáveis pelos foguetes, se juntavam aos demais membros da comissão dos festejos para um café da manhã.

Em seguida eles tratavam de rever os últimos preparativos antes da missa dominical. A esta altura faltava pouca coisa a se fazer porque a maioria das barracas já estavam montadas sob a orientação de Domingos Quintanilha.

A esta altura a Vila já estava acordada. O vai-e-vem das pessoas tomava conta da praça e das principais ruas do bairro. As ruas em volta da igreja Nossa Senhora de Fátima estavam enfeitadas, clima de festa. A rua 30 de Novembro (a principal do bairro) parecia um túnel multicolorido, devido a formação helicoidal das varas de bambus entrelaçadas e amarradas em cada poste de luz elétrica. Era uma imensidão de bandeirinhas coloridas penduradas ao longo da rua. Algumas caídas, devido ao peso do sereno da madrugada. Mas nada que tirasse sua beleza.

A fila na padaria do Ferreira aumentava. O povo com pressa querendo levar para casa o pão e o leite para o café da manhã. O movimento no bar do Tarifa e do Zé da Silva era grande. O pessoal que retornava da feira com sacolas pesadas cruzava com os moradores que retornavam da padaria e iam formando as rodinhas de bate-papo.

Eram quase 10h00 e a tradicional missa matinal de domingo ia começar. Era dia de batizados, o povo bem vestido, com a melhor roupa para sair bem na fotografia.

A acanhada igreja Nossa Senhora de Fátima não comportava todo mundo, por isso, apenas parte da população conseguia assistir a missa, os demais permaneciam próximos à porta de entrada, muitos do lado de fora da igreja. Os que não haviam conseguido entrar no interior da igreja ficavam do lado de fora, na porta, dividindo as atenções entre o sermão do padre lá dentro e o burburinho da praça.

O comércio de ambulantes atraia atenção dos que permaneciam em frente à praça. E tinha de tudo: bexigas coloridas, papa-vento, brinquedos e vendedores de pipoca, amendoim, pirulitos, geleia, quebra-queixo e algodão-doce.

Assim que terminava a missa, a mulherada seguia rapidamente para suas casas a tempo de terminar o almoço para a família, porque a festa começava mesmo era à tarde.

Por volta das 14h00, início da tarde, a criançada se aglomerava na parte de trás da igreja, nas proximidades da propriedade da família Hernandez para participarem dos jogos e as tradicionais brincadeiras de quebra-moringa, pau-de-sebo e corrida de sacos.

A comissão dos festejos tentava controlar a empolgação da criançada, mas era difícil. E lá estavam os abnegados Amauri de Oliveira, Alcides Pincelli, Wagner Barbosa, Luiz Carlos Checoni, Advanil (Grilo), Altininho Leonardi, Jitairo Barbacena e Luiz Carlos (Jaú),

A BANDINHA

Logo após, chegava o grupo musical para alegrar a festa. Por um bom tempo a bandinha da Sexta-Colônia foi quem abrilhantou os festejos. O maestro era o João Martins, funcionário do Hospital do Juquery que com autorização da direção do Hospital trazia os pacientes que faziam parte da corporação musical. E eles eram muito bem tratados. Como não era possível montar uma banda somente com pacientes, ela era reforçada com alguns funcionários do Juquery que militavam na música, como Altino Bueno, João Lirussi, Afonso Lirussi, Zitinho, Evilázio e Armando Faria.

Houve uma época que a festa era abrilhantada pela Banda da Força Pública com seu tradicional repertório de marchas militares para deleite dos moradores mais antigos. Certa ocasião, a festa foi animada por um grupo de violeiros de Mairiporã e o tradicional grupo folclórico de Congada. Não havia cachê. Os músicos recebiam lanches e bebidas como pagamento.

A PROCISSÃO

Ao final da tarde saia a procissão. Aquele cortejo religioso percorrendo as ruas ao redor da igreja entoando cânticos religiosos. À frente seguia seu Antônio Baldim, o decano do bairro e emérito colaborador nas festas empunhando um cetro esguio, tendo no topo o símbolo maior da cristandade, a figura de Jesus Cristo numa cruz. Atrás vinha o andor de São Benedito, seguido de duas colunas de andores, cada um com um santo, um mais bonito que o outro. O padre José Sagliocco – um italiano radicado no Brasil – não deixava a procissão sair sem essa formação.

Como na letra da música de Gilberto Gil, a procissão seguia pelas ruas do bairro “caminhando que nem cobra pelo chão”. Ao afastar-se do centro do bairro a procissão era denunciada pelos rojões e o cântico religioso dos fiéis. No retorno à igreja no centro do bairro, no entardecer  alguns já ostentavam velas acesas nas mãos o que dava um colorido especial ao cortejo.

Ao som da ladainha o padre José Sagliocco posicionava o grupo em frente à igreja e promovia o ritual de coroação da Santa, quando então pronunciava palavras incompreensíveis em seu sotaque italiano carregado, que alguns pareciam tudo entender. Só depois de encerrada essa cerimônia que o padre José Sagliocco autorizava o início da festa. Aí ia todo mundo para as barracas da quermesse.

FESTA DO INTERIOR

Na pracinha em frente à igreja as moças circulavam pra lá e pra cá num ritual característico da época e que resultou em muitos casamentos. Havia o Correio-elegante levando mensagens de amor. Os torpedos como eram conhecidos serviam para aproximar os casais. Outra forma de se aproximar da pessoa pretendida era oferecer uma música através do Serviço de Alto-falante Bandeirantes, que ficava instalado na sacristia que se transformava em estúdio de som. O locutor Amauri de Oliveira, entre os intervalos das canções da época lia os recados enviados para o estúdio. E dizia em seu jargão radiofônico: “Uma gravação oferecida jamais será esquecida” – “Serviço de Alto-falantes Bandeirantes. E atenção! O rapaz de suéter cor de vinho oferece a próxima música para a moça de blusa banlon e saia bege plissada, como prova de muito carinho”, encerrava sua fala e em seguida tocava uma melodia.

Minutos depois, a pessoa envolvida nesse imbróglio aparecia no estúdio da igreja, toda animada, perguntando pelo autor da mensagem. Muitas vezes isso dava em namoro e até casamento.

A QUERMESSE

Enquanto isso, o movimento nas barracas ia aumentando. A barraquinha dos coelhinhos era a que mais chamava a atenção da criançada. Enquanto não fossem vendidos todos os bilhetes numerados o Luiz Carlos (o Jaú), responsável pela barraca, não começava a brincadeira. Então, com muito suspense, o Jaú erguia devagarinho a cordinha que ia suspendendo a caixa até deixar o coelhinho livre para escolher uma das casinhas coloridas numeradas, onde assustado, tentava se esconder das luzes e da gritaria da criançada. “Ganhou o número 6, casinha cor-de-rosa” gritava Jaú, oferecendo um lindo jarro de louça colorido para o ganhador.

Ao lado, a barraca da roleta era total animação. “Vai correr!... Vai correr!” Gritava Domingos Quintanilha girando a roleta rodeada de pregos na borda que girava até parar em determinando número. “Saiu o numero 97! Número 97! Quem é o felizardo?” Esbravejava Quintanilha. O ganhador ganhava um frango assado e saia contente com seu prêmio. Muitos levavam o prêmio para casa, outros entravam no bar do Zé da Silva em frente à igreja e ali mesmo consumiam o petisco.

A Barraquinha da pesca também era muito freqüentada. Todo mundo querendo laçar o peixinho e conquistar um prêmio. A barraca da argola era reduto do Zé Carlos Morelato que quase sempre ganhava a maioria dos prêmios.

PRAÇA LOTADA

A Vila Ramos nessa noite ficava alvoroçada. Os bares da rua 30 de Novembro, emparelhados um ao lado outro faturavam bastante. O movimento era muito grande. A rua fazia esquina com a Jaime Duprat. Era um bar ao lado do outro: Bar do Laudelino, Bar do Tarifa, Gin Bar, Bar do Miranda, Bar do Fredolino e o Bar do Zé da Silva, único que permanece no local até os dias atuais.

Mais adiante, na mesma rua, em frente à Praça Antônio Teixeira ficava o Armazém do Nilson Morelato, ao lado o Bar da Penha e na outra esquina, o Armazém do Sr. José Evangelista. A praça também ficava bem movimentada, pois naquela época a fonte luminosa funcionava e muitas famílias se reuniam nesse local para apreciar o movimento e bater papo com a vizinhança.

Vinha gente de várias localidades da cidade e região. Eram bem acolhidos e dificilmente acontecia um entrevero.

FIM DA FESTA

Vinte e duas horas. Chegava o grande momento aguardado; a queima-de-fogos. O povo ficava hipnotizado, abismado olhando para o céu diante daquela chuva de cores e se desviando das varetas dos rojões que caiam bem próximos.

Depois disso, o padre dava por encerrado os festejos em comemoração a Nossa Senhora de Fátima. O alto-falante da igreja era desligado pontualmente às 22h30 e o povo da Vila ia para suas casas, os visitantes tratavam de se preparar para retornar para seus bairros, porque o último ônibus da Viação Francorrochense ia passar. A praça em frente à igreja ia ficando vazia. Apenas algumas pessoas circulando, e o pessoal da comissão organizadora permanecia por ali desmontando as barracas.

Assim terminava mais uma festa em louvor a Nossa Senhora de Fátima, a padroeira do bairro.

 

Texto: Benedito Coutinho

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